UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA QUÍMICA
Disciplina de Tópicos Especiais em Engenharia Química II
ÉTICA, MORAL E ENGENHARIA

(Primeira redação em maio de 2.012. Segunda redação em fevereiro de 2.013.)

Materialismo e Espiritualismo.

Espiritualistas são aqueles que aceitam como verdadeira a existência de um ser eterno, causa de tudo, que não pode ser observado por meios convencionais e que em grande parte não pode ser compreendido. Os materialistas consideram esta afirmação como falsa.
Numa posição intermediária, há aqueles que pelo menos tentam manter-se neutros ou alheios a esta questão, por indiferença, por testemunho de ignorância ou outro motivo qualquer.
Além da capacidade criadora e da eternidade deste ser, outras costumam estar a ele associadas, tais como a capacidade de manter e sustentar a sua criação; a capacidade de transformá-la; sua presença em toda a obra; seu conhecimento de tudo o que nela ocorre; seu poder absoluto; seu amor ilimitado por tudo o que cria...
Tais idéias influenciam fortemente a visão do mundo e da vida dos indivíduos, bem como suas posturas diante desta mesma vida e deste mesmo mundo. Consequentemente tendem a influir significativamente no comportamento de cada um.
Tal questão, fundamental do saber humano, exerce influência maior ou menor em quase todos os ramos da Filosofia: Ética, Política, Metafísica, Filosofia da Mente, Religião, Ciência...

O debate entre materialistas e espiritualistas é antigo.

Anselmo propôs o argumento chamado de ontológico: Por definição, Deus é um ser tão grande que maior não por ser concebido. Deus pode ser concebido como mera idéia ou como realmente existindo. Mas existir é maior que não existir. Portanto Deus existe.
Tal argumento foi rebatido, por sinal por outros espiritualistas: O argumento só prova a existência de um tudo que abarca tudo e não necessariamente a existência de Deus. Materialistas rebatem o argumento ontológico afirmando que a existência de algo tão grande que maior não pode ser concebido é uma definição e não um fato, de modo que a existência de um tudo pode ser falsa. Ou ainda, que a mera idéia de existir um tudo não implica que o tudo exista. Um espiritualista questionaria então, se o tudo não existe, existe então o nada e é então no nada que todos nós existimos e vivemos o que obviamente não faz sentido.

Kant observou quanto a esta polêmica, que quando dizemos que algo existe, na verdade estamos afirmando que este algo corresponde ao seu conceito, tal como uma esfera existe por corresponder à idéia de uma esfera. Desta forma Deus existe ou não conforme o modo que o concebemos. A consequência a meu ver desta brilhante colocação de Kant é a de que pelo menos a maior parte da polêmica entre espiritualistas e materialistas não se baseia em fatos, mas sim em concepções, ou ainda do modo como tais fatos são interpretados. Mais claramente, o possível fato Deus independe de expressões tais como Deus existe ou Deus não existe.

O ponto de partida para o argumento dito cosmológico é a questão do porque qualquer coisa ou tudo existe.
Uma versão deste argumento é o argumento Kalam que indaga sobre causas: Tudo o que existe teve uma origem, isto é, é um efeito de uma causa. Desta forma temos uma sucessão de causas que teria sua origem no início do Universo, o que pela ciência moderna ocorreu há cerca de 13 bilhões de anos. Mas pela racionalidade não é possível que algo surja do nada. Desta forma surge a pergunta, donde o Universo surgiu?
O materialismo rebate que não podemos afirmar que é impossível que algo surja do nada, porque nada sabemos quanto ao surgimento de Universos. Pragmaticamente neste sentido, Bertrand Russel afirma: "O Universo simplesmente está aí, e isso é tudo".
Um observador do debate ponderará que do mesmo modo que não podemos afirmar que é impossível que algo surja do nada, também podemos afirmar que é mais provável e mais simples aceitar que algo surja de uma outra coisa.
Georges Lemaître propôs o que ficou conhecido como a teoria Big Bang da origem do Universo, embora tenha chamado como Hipótese do Átomo Primordial. Por esta teoria, algo de dimensões tendendo a zero e com massa e energia tendendo ao infinito entrou em colapso e explodiu, dando origem ao Universo em expansão que temos hoje.
A mesma questão é retomada: Por que tal átomo primordial existiu?
Um materialista acrescentaria um novo aspecto à discussão: Se a divindade deu origem ao Universo e se é impossível um efeito sem causa, qual foi a causa de Deus; porque Deus existe?
O espiritualista contra-argumentaria que Deus é a Causa sem Causa. E o materialista voltaria a carga afirmando que se aceitamos que Deus seja a Causa sem Causa, porque não aceitar que o Universo, ele mesmo seja esta causa sem causa, ou a causa primordial.
A ciência levanta hipóteses de que Big Bang tenha sido precedido por outro Universo e este por sua vez por outros, numa sucessão infinita de causas. Desta forma o Universo sempre existiu e não há absolutamente um começo. O Universo existe e existirá eternamente. O Universo é auto-gerante; se cria continuamente.
Por outro lado, pelo conhecimento científico atual, com o Big Bang, o próprio espaço e o próprio tempo vieram também a existir Assim a capaciade intelectual humana se torna totalmente impotente para analisar algo que está além do espaço e do tempo.
E claramente se chega a uma questão que me parece irrespondível, que transcende a polêmica entre materialistas e espiritualistas, na qual a observação de Kant, já transcrita, também me parece bastante pertinente: o que explica este algo além do espaço, do tempo, e de tudo o mais que conhecemos? Seria este algo essencialmente cognoscível ou incognoscível pelo ser humano ?
Quanto ao argumento cosmológico, me parece interessante destacar o pensamento do filósofo Richard Swinburne que o compreende como um inferência de que Deus é a melhor explicação para a existência do Universo, assim como a melhor explicação para a existência de uma pintura é que um artista a pintou.

Interessante também observar os limites das ciências naturais, que explicam fatos por meio de leis fundamentais ou pressupõe sua existência.
Tais ciências simplesmente não tem condições ou intenção ou mesmo a percepção da importância de explicar de onde vem tais leis e por que tais leis são como são. Frente a isto um espiritualista questionaria, o que lhes sustenta e lhes permite atuar.

O argumento teleológico conclui que só a existência de uma mente; de um projetista, pode explicar satisfatoriamente a ordenação que observamos a nossa volta e em nós mesmos. O materialista afirma que a aparência de planejamento e ordem pode ocorrer por meio de leis naturais (apesar de que não se interesse por explicar por que as referidas leis são como são), de modo que as coisas do Universo, embora pareçam projetadas, são o produto de uma série aleatória de coincidências.
O materialista defende a idéia que tudo surgiu por ação do acaso, sem nenhuma interferência inteligente.

Em defesa do espiritualismo, surge o argumento que podemos chamar de probabilístico, oriundo do conhecimento científico atual. Por tal conhecimento, a probabilidade de que a partir do Big Bang; da explosão do átomo primordial, se forme as estrelas é de 1 para 10 elevado a potência 60 ou uma para um algarismo seguido de sessenta zeros de possibilidades. Se considerássemos a probalidade de a partir do Big Bang surgisse aleatoriamente a vida, o número no expoente seria muito maior. Para recordar a dimensão deste número, a chance de acertar a mega-sena com uma aposta única em seis algarismos é de uma em 50 milhões de tentativas ou 1 : 5 x 10 elevado a potência 7. De modo que a probabilidade (apenas de existirem estrelas) por um processo aleatório é mais remota do que aquela de um único indivíduo acertar 8 vezes na mega-sena. Por outro lado, não se observa a existência de outras premiações, isto é, a existência dos outros Universos alternativos. De modo que aleatoriamente dever-se-ia jogar apenas 8 vezes, acertando a mega-sena em todas as oito.
Frente a isto o materialista responde que num único lance, uma destas trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de possibilidades, aleatoriamente se concretiza e foi exatamente isto que aconteceu!

Qualquer experiência perceptual é verdadeira e baseada na realidade até prova em contrário. Quando mais de um indivíduo tem experiência perceptual similar, o fato atesta a veracidade da descrição. Neste sentido, em prol do espiritualismo, personagens de nossa espécie afirmam ter passado por uma experiência mística. Como experiência mística se entende aquela na qual o indivíduo que por ela passa, ter tido o conhecimento direto de Deus. No caso de experiências místicas, há notáveis similaridades mesmo ocorrendo em indivíduos e circunstâncias muito diferentes entre si, o que atestaria a sua veracidade.
William James, nos seus estudos, observou que tais experiências não envolvem o pensamento e não estão ligadas a nenhuma forma específica de órgão sensorial, como olhos ou ouvidos. São visões e audições, independentes dos órgãos sensoriais convencionais. O indivíduo fica cônscio da divindade e por vezes desaparece a distinção entre os dois, o que é conhecido como união mística. No entanto, é considerado que só uns poucos tem tal experiência mística e ainda em raras ocasiões. Desta forma o materialista contra-argumenta ponderando que por ser a experiência mística tão rara, não podemos ter certeza de sua veracidade, pois confiamos numa percepção, em parte, por ser corrente, comum e informativa. O espiritualista retomaria a discussão, também ponderando que, por exemplo, a ciência mais convencional considera como verdadeira uma série inumerável de informações, que apenas uns poucos comprovaram em seu laboratórios de muito difícil acesso, por meio de equipamentos de muito trabalhosa e onerosa construção, de modo que o fato de que poucas pessoas possam testemunhar algo, não implica ou justifica duvidar do conhecimento das que podem. Ou seja, em outras palavras, não podemos atestar se algo é verdadeiro ou não, por sua frequência ou pelo número de testemunhas.

Numa linha um pouco diferente de raciocínio, o materialista salienta que a experiência mística não é comprovada por outros sentidos: não se pode, por exemplo, ver Deus ou apalpar Deus. E ainda, se por um lado, a experiência mística de diferentes indivíduos em diferentes circunstâncias tem muitos pontos gerais em comum, seus detalhes são fortemente influenciados pelas crenças que carregam. Alguns podem ver anjos, outros santos, outros ainda as mais diferentes formas e entidades, de modo que em parte a experiência é condicionada pelas expectativas do sujeito. Admitir que tais experiências são, pelo menos em parte, uma criação nossa, suscita a possibilidade de que sejam inteiramente criação nossa. O espiritualista salienta que um grande número de indivíduos pode testemunhar exatamente um mesmo fato, mas provavelmente irão discordar em alguma medida sobre o que viram. Tal discordância não implica na falsidade do fato em si.

Freud defende a idéia de que as experiências místicas são alucinações oníricas desencadeadas por ansiedades e desejos profundos e não expressados. São alucinações que ocorrem em indivíduos enquanto despertos, que nascem de um anseio por segurança e por um sentido à vida. Pelo emprego de argumento estatístico e em contraponto, pode-se observar que numa distribuição gaussiana de uma dada população, teremos indivíduos fora da norma não só em uma, mas sim nas duas extremidades. Por certo há a ocorrência, representada forçosamente numa destas extremidades, de obscurecimento da capacidade racional ou em outras palavras de alucinações. Mas matematicamente na outra extremidade, teremos que encontrar indivíduos que apresentam também de modo esporádico, um esclarecimento supranormal da razão. Desta forma, os modos alternativos de perceber a realidade não se explicam pela afirmação de que todos que apresentem tal característica sejam alucinados. Ou de modo mais objetivo, se há aqueles que percebem a realidade de forma mais distorcida do que a percepção da maioria, deve haver também um número de indivíduos que a percebe ocasionalmente de modo mais fiel. Suplementarmente é possível levantar a hipótese que em alguns casos, sejam semelhantes os processos que levam a uma percepção distorcida ou privilegiada da realidade, sendo a qualidade de tais percepções uma função das características pessoais do sujeito que as tem.

O materialista argumenta que o ser humano historicamente sente-se vulnerável e frustrado por estar sujeito às forças e às leis naturais, basicamente fora de seu controle. Deste modo, como criança insegura, anseia por proteção e esta é dada pela crença religiosa. O espiritualista provavelmente concordaria com tal gênese histórica, mas contra-argumentaria que parcela significativa das crenças religiosas mundiais da atualidade, tais como o taoísmo e algumas formas de budismo e hinduísmo, absolutamente não tem inserida em seus corpos doutrinários, qualquer idéia de proteção ou de controle sobre leis naturais. Oitenta e cinco por cento da população mundial tem alguma crença religiosa. Apenas as três citadas representam 26% da população (pesquisa da Encyclopaedia Britannica em 2005). A opção espiritualista é extremamente corrente e comum.

Existem pelo menos outras duas posturas, que podem ser consideradas não exatamente em defesa do materialismo, mas sim de revolta ao espiritualismo.

A mais amena delas pode ser expressa: Se Deus existe porque Ele não se mostra a mim? Salvo melhor entendimento é uma postura bem egocêntrica. Por analogia e aceitando, para efeito de raciocínio, que Deus exista, talvez seja o mesmo de julgar que um jardineiro teria vontade de se exibir para uma flor de seu jardim ou que esta flor, enquanto uma mera flor, tivesse condições de ser consciente dele.
Ou poeticamente uma situação paradoxal em que um bebê no colo de sua mãe peça que esta se mostre a ele. Daí a mãe lhe acaricia a cabeça e o bebê exclama: Que bom; mas mamãe, se mostre para mim. Daí a mãe o faz arrotar e o bebê exclama: Que ruim; mas mamãe se mostre para mim. Daí a mãe canta para ele, mas ele está agora tão distraído com a chupeta que ela lhe deu, que nem escuta.
Tal questão passa ainda pela teoria do conhecimento, plenamente válida, de Platão: "O conhecimento é uma crença que se mostra posteriormente verdadeira." Esta frase se aplica a qualquer tipo de conhecimento. O primeiro e indispensável passo para a construção de um conhecimento é o de aceitar uma hipótese como verdadeira. Só posteriormente à sua aceitação é que a hipótese pode ser demonstrada como verdadeira ou não. Nos dois casos o conhecimento se constroi, pelo surgimento da tese ou pela refutação da mesma.

A mais severa revolta pode ser expressa: Se Deus existe, porque existe a morte e tudo o mais que me faz sofrer? Por que alguns vivem mais e outros menos; porque alguns sofrem mais e outros menos? Tais posturas claramente não estão ligadas à existência ou não de Deus, mas sim às concepções particulares associadas a este Deus (relembre a observação de Kant já mencionada) e ainda mais à concepção vulgar do próprio ser humano em particular e de tudo o mais de modo geral. Se o sofrimento, a título de exemplo, não fosse encarado como o sumo mal, mas um mecanismo de correção de rumo ou de impulsão a um melhor estado, por certo, a revolta ao espiritualismo amenizar-se-ia. Se o conceito popular da finitude e de unicidade da existência humana fosse, por exemplo, substituído pela idéia de que seríamos, de algum modo tão eternos quanto a entidade criadora, possuindo, portanto, infinitas possibilidades de sofrimentos e felicidades; que a vida não se limita a um curto lapso de tempo, igualmente a sensação de injustiça tenderia a desaparecer.

Até este ponto, você foi convidado à leitura e análise de cerca de três páginas de texto. O que justifica o esforço e o tempo despendido? Se a motivação fosse convencê-lo a respeito de um ou outro ponto de vista a tarefa não valeria a pena. Ela se justifica para o seu esclarecimento quanto à multiplicidade de argumentos que tal controvérsia pode sustentar e ainda muito mais para mostrar que a nível racional não é possível se chegar a uma solução definitiva. Pelas características da mente humana, uma discussão deste tipo é como o combate entre dois espadachins imortais. Um desfere um golpe, defendido pela espada do outro. Mas no momento que o golpe é desferido se abre uma brecha nas defesas do primeiro. Assim, na sequência, o segundo desfere um golpe visando atingir tal brecha, o primeiro se defende e a batalha não tem fim.

Além do esclarecimento, o objetivo é mostrar a veracidade de um dos aforismos de Albert Einstein (por sinal um espiritualista): "Há apenas dois modos de explicar o mundo: ou tudo é milagre ou nada o é." Ou o Universo e as leis que o regem são causas sem causas ou há uma divindade que cria, sustenta e rege a tudo. E mais uma vez salientamos que por meios racionais, o que é demonstrado pela disputa intelectiva que perdura por milhares de anos, não é possível se chegar a uma solução unânime não questionável ou não sujeita a controvérsias.

Através da pesquisa realizada pela Enciclopédia Britânica de 2005, sabemos que o montante daqueles que se declaram ateus perfaz cerca de 2 % da população mundial. É discutível se quantificar dentre estes, quantos concordam e tem ciência que a defesa lógica de tal postura exige, como vimos, considerar-se o Universo como causa sem causa; causa primordial; eterno; auto-gerante; além do espaço e do tempo; essencialmente incognoscível.

Retornemos à teoria do conhecimento de Platão. Suponhamos que um indivíduo venha a saber que outro afirma ter tido uma experiência sobrenatural. A ele sempre se abrirão opções: tal testemunho é falso; o indivíduo que afirma o fato teve uma alucinação ou foi enganado; o testemunho é verdadeiro. Suponhamos agora que o próprio sujeito tenha uma experiência sobrenatural. Este continua tendo opções: eu sofri uma alucinação; eu fui enganado; a experiência foi real. Se forem várias as experiências, permanece a opção de crer nelas ou não. Isto também ocorrerá se um grupo de indivíduos tiver tais experiências: O grupo foi enganado; o grupo sofreu uma alucinação coletiva; o grupo teve uma experiência autêntica.

Por tudo que expusemos, talvez possamos afirmar sem erro, que a polêmica na verdade passa pela questão: No que cada um quer confiar? O que cada um escolhe acreditar?

Quanto à influência que cada uma destas duas convicções antagônicas tem sobre o ser humano, algumas posições polêmicas, eventualmente verdadeiras, poderiam ser levantadas. (Qualquer idéia pode ser polemizada.) Com respeito a apenas uma delas observamos, que imerso na tristeza e no pessimismo de uma vida finita e débil, essencialmente sem sentido, provavelmente o mais eminente materialista brasileiro da atualidade, Oscar Niemeyer afirmou: "A vida é um sopro". Um espiritualista, no otimismo de uma vida infinita, plena de possibilidades, associada ao seu criador, o Criador do Universo, exclamaria: "A vida é uma melodia sem fim".

Referência: Stephen Law. Guia ilustrado Zahar: Filosofia. 2a ed. 2.009. (Original: Eyewitness Companions: Philosophy. 2.007) ISBN 978-85-378-0070-6

Um seu amigo
Paul Fernand Milcent