FELICIDADE!

 

O que mais posso desejar a mim mesmo senão muita felicidade, muito enlevo e paz interior no presente, futuro e numa vida pós-morte? O que mais podemos almejar àqueles que nos rodeiam? Aos meus alunos que me toleraram durante meses a fio apesar de minhas falhas evidentes? O que posso querer para meus ex-alunos que lembraram de mim com carinho e respeito? Por fim que desejar aos agora colegas de profissão que num gesto de bondade e compreensão me escolheram como nome de turma para a solenidade de formatura? A todos vocês, seguramente faço sinceros votos de FELICIDADE.

 

Mas ter desejos é fácil. É de se esperar que todos nós de um modo ou de outro lutemos por nossa felicidade. A questão é como obtê-la. Para responder a esta pergunta, podemos recorrer aos expoentes máximos e grandiosos gênios de nossa raça, que de tempos em tempos reafirmam nos mais diferentes locais do globo, que existe uma correlação entre felicidade e bondade.

 

Mas de novo tal afirmação nos suscita dúvidas, pois todos os seres humanos normais desejam de um modo ou de outro serem bons e na verdade a maioria acredita já ser bom. Se é verdade que somos bons, segundo os pensadores da humanidade, para sermos mais felizes cabe nos tornarmos melhores.

 

Mas o que nos faz ser bons ou melhores? A própria pergunta já trás em si uma singela, e penso eu, igualmente veraz resposta, pois o verbo fazer é um verbo de ação e assim nos tornamos melhores fazendo o bem. Daí nos vem em turbilhão três conceitos: O primeiro é a melhor fundamentação que conheço sobre a ética, isto é, a de que a essência da ética é fazer o bem. Para sabermos o que é fazer o bem, nos vem em socorro o que se constitui no cerne da moral judaico-cristã: faze ao próximo aquilo que gostaria que fosse feito a ti mesmo. E por fim, como recompensa, visto que todos nós somos sedentos por amor e aceitação: por vossas obras sereis julgados; por vossas obras sereis conhecidos. Em suma, sejamos mais éticos e seremos mais felizes.

 

Mas ser mais ético implica em crescimento, aprimoramento e mudança. Implica no gerenciamento do nosso próprio eu. Para que consigamos atuar inteligentemente sobre nós mesmos, para nos tornarmos melhores e assim sermos mais felizes, torna-se necessário conhecermos melhor a nós próprios. O auto-conhecimento, salvo mais claro entendimento, dá o poder de melhor conduzir a nossa vida e o nosso desenvolvimento pessoal. Já nos sugeria o filósofo Sócrates: os homens só cometem erros por ignorância. Só não são mais éticos e portanto mais felizes por que não conseguem gerenciar bem a si mesmos; não se controlam na medida que não se conhecem e correm fugazes atrás de fantasias passageiras. Um homem é capaz de vender sua alma por um emprego e bom salário, quando na verdade só o que deseja no seu íntimo é ser feliz.

 

E Sócrates foi professor de Platão. E Platão foi professor de Aristóteles. Este último gênio, tal como os anteriores, muito pensou e estudou. Após inúmeras reflexões escreveu capítulos que chegaram a nós na forma de um livro: Ética a Nicômaco. Tal ética nas minhas convicções só é superada por aquela exemplificada por seres tais como Jesus, a qual por sinal, sofreu deturpações com o passar dos séculos. Aristóteles apresenta um conceito que me parece muito oportuno para o auto-conhecimento. Ele como que coloca todas as paixões humanas sobre uma reta. Nos extremos o excessos; no centro, de forma equilibrada uma dada virtude humana. Nas extremidades as paixões turbulentas; no centro o equilíbrio e a paz.

 

Tentemos analisar um exemplo. Frente a uma situação de perigo, real ou imaginário, duas respostas extremas podem ser obtidas: a reação agressiva e raivosa ou a fuga desesperada. No centro do turbilhão estaria a virtude da coragem que não é nem necessariamente ataque, nem necessariamente fuga, mas o enfrentar; o encarar de frente a irritação e o medo instintivos. A coragem não é ausência de medo ou o impulso por revidar uma agressão. É sim ter o melhor controle possível de nossos medos e iras. Analisar os centros de equilíbrio de nossas emoções nos ajuda a melhor controlá-las. Controlar nossas emoções nos torna mais felizes. Em suma, é o auto-conhecimento nos auxiliando no caminho da felicidade.

Muitos serão os medos e as contrariedades a assolar o caminho de um engenheiro químico recém formado. Cabe-nos na maior serenidade possível frente à situação, buscar em nosso âmago o equilíbrio das emoções.

 

Mais recentemente um obscuro pensador, artesão da área da ótica por profissão, nos auxiliou a dar mais um enorme passo no caminho da verdade de nossa natureza íntima. Este foi Baruch de Spinoza na sua obra póstuma: Ética Demonstrada a Maneira dos Geômetras. (Editora Martin Claret) Este filósofo estudou o Homem, a Natureza e Deus e concluiu que uma das características mais fundamentais da criação é o impulso, o movimento e o agir. Conhecendo os alicerces, mais fácil é desvendar o que há por detrás de nossos corações. Segundo ele, nos tornamos felizes se nossa potência de agir é aumentada e ficamos tristes se a nossa potência de agir é diminuída. Assim a alegria que sentimos na ocasião de nossa formatura, que culmina muitos anos de ação nos estudos, se desdobrará e aumentará na medida que passarmos a atuar construtivamente no mundo que nos rodeia pelo exercício de um trabalho. Qualquer trabalho, mesmo que humilde e pouco expressivo.

 

Continua o autor nos mostrando que tendemos a amar quem aumenta nossa felicidade e odiar quem a diminui. E passo a passo, algo do que está atrás de nossos sentimentos vai sendo revelado ao nosso mundo consciente e uma vez revelado, mais fácil se torna dominar nosso mundo interior.

 

Sendo a ética o exercício do bem, um potente meio de disseminar a felicidade no mundo é ser um auxílio, e não um estorvo, a todos aqueles que entram em nossa esfera de ação. Se você desejar crescer profissionalmente, mas se o seu crescimento afogar o desenvolvimento dos seus colegas de trabalho, o resultado será uma colheita de ódio, pois como vimos, esta é a resposta que se espera do ser humano em tal situação. Você será sábio se conseguir fazer que seu sucesso se faça pelo crescimento daqueles que o rodeiam.

 

Acredito que foram felizes os homens que conheceram e praticaram os conceitos acima expostos. Um deles foi Benjamin Franklin, notável cientista, filósofo e escritor do século XVIII. Num de seus inúmeros aforismos afirma: nada há de tão popular quanto a bondade.

 

Algumas pessoas, num certo ponto da vida, como que mergulham no inferno. O chão se abre e um caldeirão fervente é a única coisa que lhes acolhe. Isto aconteceu comigo. Mas as coisas começaram a melhorar depois que eu rezei meio incrédulo uma Ave-Maria. Se isto vier a acontecer com você, experimente também meio incrédulo e por via das dúvidas esta receita.

 

Para encerrar a carta faço algumas sugestões, ainda mais baseado na teoria do que na prática, como seria desejável.

-         Ganhe um pouco do seu tempo lendo os livros indicados acima. Tal leitura foi muito reveladora para mim. Isto talvez torne sua vida mais ética, e portanto mais feliz.

-         Procure dominar e entender suas emoções. A cada vez que você se entregar a elas, as mesmas tenderão a ser mais fortes e a lhe controlar.

-         Procure ou crie uma ocupação, mesmo que pouco expressiva e mal remunerada. Neste sentido, pequenos gestos, tais como visitas periódicas a um asilo são alimento da alma.

-         Semeie bondade entre seus próximos e colha amor.

 

E com gratidão, mais uma vez lhe desejo

 

FELICIDADE!

 

 

 

Paul Fernand Milcent

Em 25 de agosto de 2.008.

Na ocasião de sua formatura.